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15/09/2017 15:04 Em destaque Newsletter Notícias

Setembro Amarelo – Abrir espaço para falar de suicídio pode salvar vidas

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Setembro Amarelo – Abrir espaço para falar de suicídio pode salvar vidas

Por Flávia Pinheiro – Jornalista da Ampeb

Ampeb entrevista psiquiatras e mostra um pouco da realidade brasileira e de como o assunto ainda é um tabu

Ceifar a própria vida sempre foi um tema cercado de muitos preconceitos. O assunto vem sendo evitado ao longo dos anos. Não vemos notícias em veículos de comunicação, tampouco divulgação de dados estatísticos a respeito.

O suicídio, em todo tempo, foi algo escondido, mas, com o aumento do número de mortes, a Organização Mundial de Saúde (OMS) começou a disseminar informações sobre o índice de suicídios no mundo. Com essas informações, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) começou a encabeçar a campanha Setembro Amarelo, junto com o Centro de Valorização da Vida (CVV) e Conselho Federal de Medicina (CFM), para iniciar as discussões em torno de um assunto tão importante.

De acordo com a psiquiatra Mara Christina Moura de Andrade, diretora geral da clínica Ápice e com 31 anos de experiência, a recomendação era de não divulgar os suicídios, como forma de evitar o incentivo de novos casos. “No entanto, desde que aprendi o ofício, a gente entendia que a melhor forma de tratar o suicídio era falar sobre o assunto”, afirma.

Índices preocupantes – Atualmente, cerca de 13 mil pessoas tiram sua própria vida no Brasil, 8º país no ranking mundial em números absolutos de suicídios. Destas, mais de 76% são do sexo masculino. Quando falamos em todo o globo, os números são ainda mais alarmantes: “a cada 3 segundos, há uma tentativa. E a cada 30 minutos, é registrado um suicídio”, informa o psiquiatra Ivan Araújo, diretor clínico da Ápice.

Os jovens estão entre os que mais tentam, mas, segundo Araújo, há um grupo que precisa de atenção também: os idosos. Outro dado importante refere-se ao gênero. Mara Christina informou que as mulheres tentam suicídio três vezes mais que os homens, e os homens cometem suicídio três vezes mais do que as mulheres. “O homem acaba sendo mais efetivo no método que é, geralmente, mais violento”, afirma.

Os números podem ser ainda mais preocupantes, já que nem todas as tentativas de suicídio são notificadas. Ivan Araújo declarou que as pessoas não conseguem ver a intencionalidade de certas enfermidades, já que a questão da causalidade do evento não é averiguada na maioria dos casos. “Alguém que chega a uma emergência com a perna quebrada, por exemplo, pode ter se jogado de algum lugar. Ou seja, não foi acidental, foi proposital. Alguém que tentou suicídio por medicação, tem em seu laudo médico uma intoxicação medicamentosa. Um atendimento na emergência não consegue ver que, por traz daquele incidente, houve uma tentativa”, alerta o médico.

Para chegar a dados mais próximos da realidade, seria necessário, além de conscientização por parte dos profissionais, um cruzamento de informações das unidades de saúde tanto privadas, quanto públicas.

O difícil diagnóstico – O suicídio sempre foi e continua sendo um tabu, principalmente por causa do peso das questões religiosas e culturais inerentes. Abordar o fato de alguém ter tirado a própria vida vai de encontro a dogmas e, por isso, não se fala abertamente sobre o problema. “Grande parte das religiões abomina o suicídio, o que torna mais difícil a ampliação das discussões e divulgação das informações”, comenta Mara.

Além disso, a família tem dificuldade também em assumir que seu ente querido tentou cometer suicídio e o próprio paciente não aceita a doença. Há ainda o preconceito de ir ao psiquiatra: cerca de 90% dos pacientes da clínica procuraram antes outros profissionais que não puderam ajudá-los diante das características da doença. “A nossa grande luta é que a gente sabe que se o paciente for bem assistido, há como prevenir”, explica a psiquiatra.

“Ninguém quer ouvir discursos repletos de dor”, destaca Ivan Araújo como mais um obstáculo para iniciar o atendimento adequado. De acordo com o médico, por conta disso, o paciente não tem espaço para expressar seus sentimentos e a ajuda demora a chegar.

A ausência de conhecimento sobre tais problemas psiquiátricos é mais uma barreira a ser enfrentada. “Muitos dizem que vão levar o parente para um SPA, fazer uma viagem, como se essas coisas fossem diminuir a dor e o vazio que existe ali”, completa a médica.   

Os sinais de alerta – Entre as principais doenças psiquiátricas que levam um indivíduo a pensar em desistir da vida estão o transtorno bipolar do humor, sobretudo na fase depressiva; transtorno de personalidade; uso e abuso de substâncias tóxicas; esquizofrenia; depressão.

Os especialistas na área destacam os principais sintomas observados em pacientes potenciais suicidas: mudança de humor, estado deprimido, sentimento de menos-valia, de desesperança, verbalização de que a vida não vale a pena, não conseguir ver as possibilidades.  

No entanto, a depressão, por exemplo, pode ter outras formas de apresentação que não as mais comuns (prostração, tristeza, etc.). O indivíduo doente pode ter alteração e/ou inversão de padrão de sono (insônia ou hipersonia, mudança dos horários), alteração no apetite, no comportamento com o outro, apresentar irritabilidade, falta de interesse, ficar disfuncional no ambiente de trabalho, com déficits cognitivos e falhas que antes não cometeria. “Anedonia, deixar de sentir prazer nas coisas que habitualmente eram prazerosas para ele, também é outro sinal”, esclarece Ivan.

A possível saída – A partir de campanhas como o Setembro Amarelo, veiculação de séries sobre o tema (13 Reasons Why), jogos como o Baleia Azul, houve uma movimentação maior em torno do tema com a produção de estudos, debates e disseminação de informações. “Consequentemente, a sociedade passou a perceber essa forma de adoecimento, antes negligenciada e não encarada como doença, até por profissionais de saúde”, explicou o diretor clínico da Ápice.

Ivan Araújo conta que muitos pacientes, no auge da dor, acreditam que sua doença é incurável, intratável e que nada vai amenizar o sofrimento. Para ele, falar sobre o suicídio e oferecer tratamento são o caminho para que o paciente comece a perceber que aquela forma de sofrimento pode ter cura.

Os especialistas sugerem que, diante dos sentimentos apresentados, o importante é não negar essas vivências tão reais para os que estão sofrendo. Ouvir o paciente, se colocar no lugar dele é um passo essencial para quebrar a resistência.

O histórico de quem tenta ceifar a vida é muito significativo para o tratamento. Informações sobre a vida do paciente, se houve planejamento, se já ocorreu outras vezes, se há casos na família, qual o sistema de suporte que a pessoa tem, como é a relação com os familiares, se há muitos conflitos, histórico de abusos e maus tratos na infância, podem ajudar os profissionais de saúde.  

Apesar da movimentação das organizações de saúde em torno do problema, elas ainda são insipientes. “Vivemos em uma sociedade na qual as pessoas não podem se frustrar, não sabem lidar com tristeza, como se a vida fosse pautada no sucesso e na felicidade”, comenta Ivan. Enfrentar o problema é a melhor maneira de tratar os motivos de tantas doenças. Assim é possível encontrar a saída.

Clínica Ápice: A clínica psiquiátrica, localizada no bairro de Ondina, em Salvador, atende diversos tipos de planos de saúde, incluindo Sul América. Nela, há pronto atendimento 24h e internamento integral.

End: Rua Macapá, 181 – Ondina, Salvador-BA

Tel.: (71) 3028-8350

E-mail: contato@clinicaapice.com.br

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