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12/04/2018 17:17 Em destaque Notícias

GRIPE 2018: Infectologista fala da importância da vacina, perigos da contração e dos mitos sobre a doença

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GRIPE 2018: Infectologista fala da importância da vacina, perigos da contração e dos mitos sobre a doença

“A vacina é feita com vírus morto. Acreditar que a vacina da gripe é capaz de produzir gripe é a mesma coisa de acreditar que um assaltante morto é capaz de assaltar alguém. Deste modo, ela não produz gripe”, Dr. Adriano, infectologista do Hospital Aliança.

Por Flávia Pinheiro

Com a aproximação da campanha nacional de vacinação contra a gripe, a Ampeb entrevistou o médico infectologista, Dr. Adriano Silva de Oliveira, para esclarecer as principais dúvidas sobre a doença e sobre a vacina.

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Nas vésperas da vacinação nacional contra a gripe, a imunização é feita para que tipos de vírus?

– Anualmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) monitora os vírus que estão circulando no planeta. Os vírus de gripe sofrem mutações todo ano. Algumas vezes essa mutação é um pouco maior, o que faz o vírus se tornar mais perigoso. Esse ano, por exemplo, quem sofreu uma mutação grande foi o vírus H3N2, que matou muita gente no inverno do hemisfério norte e agora está vindo para cá. Então, existe uma expectativa de termos uma epidemia de H3N2. O H3N2 é um vírus que pega principalmente em extremos de idade, particularmente os idosos. A gente sempre fala muito do H1N1 porque ele assustou bastante, a partir de 2009, naquela epidemia que veio do México para o resto do planeta. O H1N1 continua sendo uma ameaça, mas a expectativa maior é para o H3N2 esse ano. Deste modo, a OMS monitora e, no momento em que ela percebe quais são os vírus circulantes, distribui essas informações e essas amostras de vírus para os laboratórios produtores de vacinas e esses laboratórios produzem as vacinas de acordo com as amostras provenientes da Organização. A partir daí, é distribuído para o planeta inteiro.

Qual a diferença entre eles e quais os mais perigosos?

– As variantes de vírus Influenza são muito grandes. A esmagadora maioria deles não tem contato com os seres humanos. Eles infectam principalmente aves e, em especial, as marinhas. Quando um vírus, que é totalmente estranho a espécie humana, entra em contato com os seres humanos, em geral, ele é extremamente letal. Foi o que aconteceu com a gripe aviária, por exemplo. Ela mata 70% das pessoas com excelente assistência médica. Sem assistência, deve chegar bem próximo de 100%. Dos vírus que mais circulam entre nós, os mais perigosos são o H1N1 e o H3N2. Mas existem outras variantes que podem, eventualmente, começar a circular e causar algum problema para a gente.

Existem épocas do ano mais propícias a essas enfermidades?

– A vacina de gripe sempre é distribuída na entrada do inverno. Em geral, no final do outono. Acontece isso aqui, no hemisfério sul e no hemisfério norte também. A expectativa é de que a doença seja mais frequente no inverno, por isso que ela é dada na entrada do inverno. Também os resfriados são mais frequentes nesta época. Vale lembrar que o inverno, por si só, não adoece ninguém, pelo menos não de doença infecciosa. Um dado interessante é que o próprio nome do vírus, Influenza, vem disso. Acreditava-se na Itália antiga que a gripe era a influência do frio, por isso que eles chamavam de “Influenza de fredo”. Ele é um vírus que normalmente se manifesta no inverno porque é nessa época que aparece frio e chuva e a união desses dois fatores cria a tendência de se trancar mais nos ambientes, as pessoas ficam mais próximas umas das outras, facilitando a circulação e a transferência do vírus de uma pessoa para outra. Ou seja, não é o frio em si. Um exemplo em que você tem muita circulação de vírus e, no entanto, a gente não está no inverno é o período logo após o carnaval. Em geral, aqui em Salvador, nós temos uma epidemia de uma doença respiratória, um resfriado. Por quê? Porque milhares de pessoas encostadas umas nas outras, durante uma semana, favorece a circulação de vírus e vem uma epidemia logo em seguida. E normalmente o carnaval é no verão. Não é a temperatura que faz aumentar a probabilidade de uma epidemia, mas sim o aglomerado de pessoas.

Como ela é contraída?

– Contato de pessoa a pessoa. Interessante é que as pessoas ficam preocupadas com a transmissão aérea, pela respiração ou pelos espirros. De fato, você tem transmissão dessa forma. Uma pessoa que espirra, por exemplo, joga perdigotos por um raio de até 3 metros. Mas a principal forma de contaminação é pelas mãos. Normalmente, a pessoa que está com gripe leva muito as mãos ao nariz e aí contamina as mãos, contamina as maçanetas, os corrimões, os botões de elevador, e aí o vírus sai circulando por aí. 

Qual a diferença da gripe H1N1 e H3N2 para as demais gripes?

– Existem duas doenças diferentes. Uma é a gripe, a outra é o resfriado. São doenças totalmente diferentes em termos de consequências, mas muito parecidas em termos de sintomas. Todas dão febre, todas dão dor de garganta, é muito mais uma irritação de garganta do que uma dor, todas dão obstrução nasal, espirro, coriza, eventualmente tosse, mas a gripe costuma ser um pouco mais exuberante nos sintomas. Enquanto que o resfriado é aquela doença que incomoda, mas permite você ir ao trabalho, continuar estudando, fazendo suas atividades diárias, a gripe tem um impacto muito grande na produtividade do indivíduo porque causa muita dor. As dores produzidas pela gripe, em geral, são muito parecidas com as da dengue. Dores musculares, dores articulares. A prostração é muito intensa e também é muito intensa a falta de apetite. A pessoa percebe que é algo um pouco mais grave do que um simples resfriado. Infelizmente, as pessoas chamam resfriado de gripe. Isso é um equívoco que traz uma série de consequências ruins, particularmente, para adesão à vacina da gripe. Então é muito comum, por exemplo, uma pessoa tomar vacina para a gripe e, um mês depois ficar resfriada, e achar que a vacina não funcionou porque ele continuou supostamente gripado. É um equívoco comum e leva muita gente a não acreditar na vacina. Infelizmente.

Como as pessoas podem se prevenir?

– A melhor forma de prevenção é, sem dúvida alguma, a vacina. Quando a gente falou sobre a diferença entre resfriado e gripe, eu não falei uma coisa importantíssima: resfriado não mata, ao contrário da gripe. Uma coisa importante sobre a vacina: ela impede você de ter gripe? Ela diminui em 70% a chance. É um impacto pequeno comparado com outras vacinas. Só que tem um detalhe, o compromisso dela não é esse. O compromisso da vacina de gripe é evitar que você tenha gripe grave, evitar a morte por gripe. E nisso ela é muito boa. Ela chega a 90%. Então, o indivíduo que toma a vacina pode ficar gripado, mas será uma gripe leve. Ele pode até adoecer do vírus influenza, mas não será uma gripe grave.

O uso do álcool em gel funciona?

O álcool em gel funciona porque ele desidrata e mata o vírus. Ele é muito mais direcionado para bactérias, mas funciona também para doença viral.

Como é o tratamento?

– É importante dizer que a maioria das pessoas, e isso acontece com a maioria dos vírus circulantes comuns, que pega um vírus Influenza não vai morrer.  Alguns poucos casos ficam graves, mas como ele é um vírus de disseminação muito grande, mesmo esses percentuais pequenos acabam se tornando muito expressivos. O tratamento se dá dependendo da situação. O paciente que tem um quadro gripal, ele pode fazer uso de medicações contra o vírus da gripe. Não são aqueles antigripais que vendem em qualquer farmácia, que são misturas de medicamentos que só têm impacto no sintoma e não têm efeito na gravidade da doença. Estou falando de medicações que destroem o vírus e que devem ser tomadas o quanto antes. Quanto mais cedo você usa essas medicações, mais eficaz é o efeito dela. Interessante é que o efeito é muito pronunciado. Das terapêuticas antimicrobianas que eu já tive acesso, é uma das mais eficazes que eu conheço porque, em geral, o paciente está se sentindo muito bem com apenas 24 horas após iniciado o tratamento. É impressionante o efeito dele e, de fato, você diminui mortalidade. Se você tiver um paciente já com pneumonia bastante instalada, com insuficiência respiratória, aí não tem jeito, vira um paciente de UTI mesmo e vai precisar de suporte e terapia intensiva. 

Quem não pode tomar a vacina?

– Ela é contraindicada, basicamente, para quem tem alergia a ovo. Alguém pode perguntar qual a relação da vacina com o ovo: é porque ela é produzida no ovo de patos ou de galinhas, então, quando você extrai o vírus do ovo, vem um pouco da proteína do ovo junto e é praticamente impossível se separar completamente a albumina do ovo da vacina. Assim, uma pessoa que é alérgica pode fazer uma reação à albumina do ovo, não ao vírus.

Alguém que já tenha pegado estas gripes, ainda precisa tomar a vacina?

– Sim. A vacina do ano passado não serve para esse ano justamente por causa das mutações. É como se fosse um vírus totalmente novo. Infelizmente o vírus da gripe tem esse aspecto, ele muda a cara dele o tempo inteiro, diferente do sarampo, por exemplo. Uma vez tomada a vacina, não precisa tomar mais nunca porque é um vírus estável, não costuma mudar.

Como as vacinas funcionam?

– Ela funciona como se fosse um retrato falado da doença. Se você tiver um bandido violentando várias mulheres numa rua e uma dessas vítimas, que conseguiu ver a cara dele, fizer o retrato falado e espalhar por todas as casas da mesma rua, as pessoas vão ficar advertidas se virem alguém parecido com o sujeito do retrato, vão denunciar ou ficar mais alertas diante do indivíduo. Então, elas ficam vacinadas. A vacina funciona da mesma forma, apresenta ao organismo humano as características do agente infeccioso circulante na região, facilitando a produção de anticorpos. Quando esse agente infeccioso chegar, os anticorpos já estão lá prontos para destruí-los antes que ele produza a doença. Por isso é que ela é extremamente eficaz, não só para a gripe, como para a maioria das doenças que possuem suas respectivas vacinas.

O cuidado com crianças é diferenciado? O que os pais devem fazer?

– Não tem muito o que ser feito. A vacina é realmente a forma mais eficaz de prevenção. Claro que se você lava bem as mãos, se você evita lugares muito cheios, cinema, shoppings, diminui muito a chance de contaminação. Mas é praticamente impossível você deter a propagação do vírus. Em 2009, quando surgiu o H1N1, muitos países resolveram fechar as fronteiras contra mexicanos e para a entrada de qualquer pessoa e, no entanto, esses países não deixaram de ter o H1N1. É uma ingenuidade, na maioria das vezes uma jogada muito mais política, jogando para a população uma ideia de que está sendo feita alguma coisa, achar que pode deter um vírus de fácil proliferação como esse. A gente tem que lembrar que hoje em nosso planeta, anualmente, nós temos mais ou menos 250 milhões de viagens intercontinentais. E uma pessoa pode pegar o vírus Influenza aqui no Brasil, ainda saudável, em 48 horas estar na China e disseminar o vírus lá do outro lado. Então, a chance de, através de controle de fronteiras, de cerceamento de circulação de pessoas, conseguir deter a circulação do vírus é de uma ingenuidade quase infantil.

A vacina tem muitos efeitos colaterais?

– Algumas pessoas tem a ideia de que a vacina pode produzir gripe. “Ah, eu não tomo vacina porque quando eu tomo, fico gripado”, dizem algumas pessoas. Infelizmente até colegas meus dizem isso. São pessoas mal informadas e que disseminam informação de forma gratuita, sem medir as consequências. A vacina é feita com vírus morto. Acreditar que a vacina da gripe é capaz de produzir gripe é a mesma coisa de acreditar que um assaltante morto é capaz de assaltar alguém. Deste modo, ela não produz gripe. O que pode acontecer, e pode causar alguma confusão, são algumas coisas como aquilo que falei: o indivíduo tomar vacina e ficar resfriado e culpar a vacina por ter ficado; ele tomar a vacina e, antes de completar o tempo dela entrar em atuação, ele ficar de fato gripado. Isso pode acontecer, já que a vacina não tem responsabilidade de atuar imediatamente após a aplicação. Outra coisa também é que qualquer vacina, assim como a de gripe, pode dar febre, que é uma característica da ativação imunológica. Se você toma uma vacina, seja ela qual for, e tem uma febre nas primeiras 24h, significa que a vacina está funcionando. Esta é uma boa notícia, ao contrário do que possa parecer. Existem algumas confusões. É uma vacina extremamente segura, existe há muitas décadas, já produzida no início do século passado, ou seja, não é uma novidade, é algo que já vendo sendo usado pela humanidade há muito tempo e tudo que a vacina é capaz de produzir de bom e de ruim a gente já conhece. No balanço entre o que ela produz de bom e de ruim, sem dúvida as vantagens são extremante maiores que as desvantagens.

A vacina tem efeito imediato a partir de sua administração?

– Não. A vacina só começa a fazer efeito uns 15 dias depois e ela entra na plenitude de seu efeito com um mês, por isso que ela tem que ser feita ainda no outono, para quando a chegada do inverno ela já esteja plenamente ativa.

Em que momento, quando doente, posso transmitir essas gripes?

– Quanto mais cedo na doença, mais ele está transmitindo. Ele tem mais vírus no organismo. E antes de começar a adoecer, ali com um ou dois dias, ele já pode estar disseminando o vírus, mas em pequena quantidade. Ele dissemina mesmo quando começa a ter sintomas. O tempo de incubação do Influenza vai de 3 a 7 dias

Quando preciso ir ao hospital? Como identificar que é algo mais sério e precisa ir ao hospital?

– Se a pessoa tiver sintomas sugerindo uma doença um pouco mais grave que o resfriado, vale a pena ir ao hospital. Mas o que eu chamaria mais a atenção? Qualquer sintoma que sugira falta de ar, dificuldade de respirar, que podem significar uma pneumonia em andamento. E aí é absolutamente necessário procurar um hospital.

Existe algum teste para comprovar que estou com a gripe H1N1 ou H3N2? Qual?

– Sim. Qualquer pessoa atendida no SUS ou na rede particular pode fazer exames baseados em sequenciamento de DNA do vírus que dá para identificar se é o H1N1, o H3N2, qualquer subtipo do vírus.

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