Um dia de jogos decisivos no Sítio São Paulo. Dos 10 times que iniciaram o II Campeonato de Futebol Society do MP-BA, apenas quatro ainda lutavam pelo título da competição. A manhã nublada de sábado foi marcada por partidas muito disputadas, com heróis e vilões improváveis, promessas cumpridas e fortes emoções.
A primeira partida da semifinal foi entre Barcelona e Sicoob. Apesar do favoritismo, a versão baiana do timaço catalão teve dificuldade em criar oportunidades de gol, principalmente no primeiro tempo. O artilheiro disparado do campeonato, Adriano Lacerda, foi bem marcado, mas quase abriu o placar depois de boa jogada pela esquerda. O chute caprichado passou raspando na trave do goleiro Celso. Raquel, a irmã de Adriano, e a mãe dele, a promotora Solange Rios, acompanhavam a partida na arquibancada como se estivessem no palco da final de uma Copa do Mundo. “É a primeira vez que eu venho assistir. Ele prometeu que faria um gol”, revelou a promotora. A promessa foi cumprida logo no primeiro minuto do segundo tempo. Adriano recebeu bom cruzamento, bateu firme de perna esquerda, fez o 25º gol dele no torneio e saiu gritando “eu falei! Eu falei!”, mostrando para a família que é
bom de bola e de profecias. “Ele falou e fez mesmo”, disse a mãe orgulhosa depois da proeza do filho goleador. Depois do gol, o Sicoob pressionou, mas parou na defesa do Barcelona e na boa atuação do goleiro Celso. Com o resultado, o time formado por convidados do MP garantiu vaga na decisão.
Um goleiro também foi destaque no embate entre Associados da Ampeb e Laranja Mecânica, segunda partida da semifinal. Mais do que isso. Ele foi o herói do dia. Careca, baixinho, bigode grisalho, barriguinha saliente, 68 anos e agilidade felina que contraria a primeira impressão de qualquer observador desavisado. Chico, o camisa 1 da Laranja Mecânica, é um corretor de imóveis que se transforma em muralha quando pisa no gramado. O menor homem em campo parecia o maior quando os jogadores do time da Ampeb partiam para o ataque. E Chico
teve muito trabalho. Mostrou elasticidade e reflexo depois do chute cheio de curva de Ramires. Foi rápido nas bolas cruzadas, seguro nos chutes de longe e preciso nas reposições. Além de todas as qualidades, é também um sujeito de sorte, que viu os chutes de Ernesto e Aroldo acertarem a trave e o travessão do gol que protegia com tanto zelo.
Os colegas de Chico não estavam tendo a mesma eficiência no ataque, mas contaram com uma falha grave da defesa da Ampeb para abrir o placar. A saída de bola errada foi parar nos pés do craque da Laranja Mecânica, Rodrigo. O camisa 11 teve tempo de avançar, mirar e chutar bem, no cantinho do goleiro Adriano. Um a zero. Os Associados da Ampeb tinham pouco tempo para buscar o empate. Wilson, o maestro e grande destaque do time da casa, assumiu a responsabilidade de comandar todas as ações. Driblou, lançou, chutou, orientou. O time da Ampeb estava cansado, Wilson já havia utilizado todo o seu repertório de boas jogadas e a partida se encaminhava para o fim quando o zagueiro Gustavo apareceu de surpresa no campo de ataque e acertou um belo chute de média distância. O goleiro Chico decolou com rapidez em direção à bola, mas nem ele foi capaz de evitar o gol de empate, a dois minutos do apito final. Partida empatada. Decisão nos pênaltis.
Pausa rápida para aquecimento, cochichos e definições. Enquanto os treinadores escolhiam os três cobradores de cada equipe, o goleiro Chico olhava tudo ao seu redor com um jeito sereno e matreiro. “Esse Chico é ‘malassombrado
´ e pode surpreender todo mundo”, apostou Senegal, zagueiro do Barcelona e espectador interessado no desfecho da batalha.
No alambrado, torcedores e jogadores gritavam palavras de incentivo ou frases para desestabilizar os cobradores. Gustavo e PC acertaram as cobranças pelo lado azul e branco da Ampeb. Jefferson e Wilson marcaram para a Laranja Mecânica. O outro Wilson, o da Ampeb, partiu para a cobrança e ouviu a provocação que veio das arquibancadas. “Craque é que costuma perder, viu, Wilson? Tome cuidado!”. O camisa 10 não desviou o olhar, mas acelerou o passo, a fim de chegar mais rapidamente à marca do pênalti. Diante dele estava o pequenino, mas destemido… Chico: o atleta mais surpreendente do campeonato. Enquanto Wilson corria para a bola, Chico fazia movimentos laterais e pequenos saltinhos para desconcentrar o oponente. Wilson bateu forte, bem colocado, mas Chico voou no canto esquerdo com incrível velocidade e espalmou
a bola, defendendo a cobrança do grande astro da Ampeb. Gritaria geral, muita comemoração, porém, ainda faltava uma cobrança para a Laranja Mecânica. Rodrigo não vacilou, fez o gol e assegurou a classificação do time para a final, mas o jogador mais festejado foi o goleiro Chico. No meio do campo, foi erguido por todos os companheiros que gritaram seu nome, num justo reconhecimento pela atuação heroica. “Preciso mostrar a cena para meus netinhos Alexandre e Agatha. Será que alguém fotografou este momento?”, perguntou Chico, emocionado. As fotografias ilustram esta reportagem.
No dia 3 de dezembro, os quatro times entram em campo novamente. Associados da Ampeb e Sicoop disputarão o terceiro lugar. Barcelona e Laranja Mecânica farão a grande final, no esperado duelo do artilheiro Adriano contra o incrível goleiro Chico.
Ascom/Ampeb